#322 – Qualidade como cultura na produção de cerveja (feat. Alexandre Esber)

Todo cervejeiro caseiro já teve aquela cerveja que saiu perfeita. Lupulada na medida certa, corpo exato, a espuma que ficou até o fundo do copo. Aí veio a segunda produção tentando repetir, e saiu completamente diferente. No episódio 322 do Brassagem Forte, Henrique Boaventura recebe Alexandre Esber, engenheiro químico, mestre cervejeiro com 28 anos de experiência e responsável pela Academia da Cerveja (escola cervejeira da Ambev voltada ao público externo), para falar sobre o que separa sorte de qualidade.

Esber começou na Brahma e passou os últimos 28 anos dentro da Ambev, dividido entre produção e controle de qualidade. O ângulo que ele traz é raro: é alguém que conhece o processo industrial de perto, mas consegue traduzir esses princípios para quem produz em casa.

O Brassagem Forte conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

Qualidade não é “estar bom”. É conformidade repetida.

O erro mais comum ao pensar em qualidade é confundi-la com excelência ou com resultado positivo. Para Esber, qualidade é outra coisa: é você desenhar o que quer produzir e conseguir chegar naquilo de forma consistente. Se você queria fazer uma Lager leve e saiu uma IPA lupulada, não importa que todos tenham adorado. O produto não tinha qualidade, porque não correspondia ao que foi desenhado.

Há dois pilares nessa definição. O primeiro é aderência: a cerveja entrega o que foi prometido no projeto? O segundo é repetibilidade: eu consigo fazer isso sempre? Esse segundo pilar é o pulo que separa o hobbysta do profissional, mas também é o que mantém o hobbysta animado. Quando a cerveja dá certo uma vez e nunca mais, a motivação vai embora. O mínimo de controle é o que mantém a roda girando.

O básico que qualquer cervejeiro caseiro pode fazer hoje

Esber foi direto sobre o que faz diferença real sem custo alto. O primeiro ponto é limpeza. Tratar cada equipamento com o mesmo cuidado que se teria ao preparar uma injeção intravenosa: se a higiene não estiver adequada, tudo que vier depois está comprometido.

O segundo ponto é o teste de iodo, que custa cerca de R$ 20 e confirma se o amido da mostura foi completamente convertido em açúcares fermentáveis. Sem essa conversão, a cerveja vai sair turva, adocicada e com fermentação incompleta. Junto ao teste, vale usar sempre a mesma superfície branca (um azulejo ou porcelana) para comparar o resultado visualmente: a consistência do ambiente de teste é parte do controle.

Para quem quer ir um passo além, um refratômetro por cerca de R$ 70 permite medir a densidade do mosto e entender quanto açúcar foi extraído na mostura. E um airlock simples na fermentação protege contra contaminações.

Equipamento caro não substitui processo

Um dos pontos mais fortes da conversa foi a distinção entre capacidade e controle. Comprar um equipamento mais caro pode aumentar a velocidade ou o volume de produção, mas não resolve problemas de processo. Controle de processo vem de outro lugar: de anotar temperatura, horário, resultados do teste de iodo, tempo de resfriamento e qualquer variação observada.

Esber usou uma analogia direta: em hobbies, você está atrapalhando o instrumento ou ele está te atrapalhando? Na maioria das vezes, o gargalo é o cervejeiro, não o equipamento. Fazer o upgrade antes de dominar o processo é investir no lugar errado.

A magia das anotações não é garantir que vai dar certo. A garantia, segundo Esber, é que vai dar errado em algum momento. O valor das notas é poder olhar para o que aconteceu e dizer “eu sei onde errei”, que já é dois degraus acima de quem não tem registro nenhum.

 A degustação é soberana

No nível industrial, a Ambev opera com 370 pontos de controle analítico para cada produção e realiza 16 degustações ao longo do processo, desde a água utilizada na mostura até a cerveja pasteurizada na garrafa. Esses painéis são cegos: as amostras recebem números aleatórios (não sequenciais, para evitar viés numérico), e quem tem maior hierarquia na mesa fala por último para não influenciar os demais avaliadores.

Mesmo com toda a instrumentação, se todas as análises estiverem dentro dos parâmetros mas a degustação apontar problema, o produto não sai. O sensorial é o portão final, e não existe equipamento que substitua um paladar calibrado.

Para o caseiro, a versão prática disso é ter degustadores honestos, escrever o perfil esperado da cerveja antes de distribuir para avaliação, e estar aberto ao feedback negativo. A dor de ouvir que a cerveja não entregou o que foi prometido é menor do que continuar produzindo sem saber onde corrigir.

O que ficou de aprendizado

  • Qualidade é conformidade com o que foi projetado, não resultado bom por acidente. Uma cerveja boa feita sem controle não é qualidade, é sorte;
  • Para o caseiro, o kit mínimo de controle custa menos de R$ 100: teste de iodo (R$ 20) e refratômetro (R$ 70), mais papel e caneta para anotações;
  • Equipamento caro aumenta capacidade, não controle. O controle vem do processo documentado;
  • Estabelecer tolerâncias para os parâmetros mais críticos (temperatura de fermentação entre 18 e 22°C, por exemplo) permite tomar decisões objetivas sobre liberar ou não um lote;
  • Na Ambev, 16 degustações humanas acompanham cada produção, e a degustação é soberana mesmo sobre todos os outros 370 pontos de controle analítico.

Ouça o episódio completo

Este post é um resumo do que foi discutido no episódio. Para ouvir a conversa na íntegra acesse o Brassagem Forte no Spotify, YouTube ou no seu agregador de áudio favorito.

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