#314 – Decocção moderna, com Jamal Awadallak

Por que a decocção ainda importa (mesmo com malte moderno)

A decocção clássica nasceu menos por romantismo e mais por necessidade. Antigamente, o malte era menos modificado, a medição de temperatura era limitada e nem toda cervejaria tinha tinas grandes (e caras) capazes de aquecer o volume inteiro com precisão. Por isso, a técnica de retirar uma fração da mostura, ferver e devolver ajudava a “criar rampas” ao misturar algo muito quente (próximo de 100 °C) com algo frio (20–35 °C), chegando a patamares estáveis no meio do caminho.

No entanto, a decocção não é só uma gambiarra térmica. Enquanto a fração fervida sofre estresse térmico, acontece gelatinização mais intensa dos amidos e maior exposição de amido “difícil de acessar”, além de reações que impactam cor e sabor. Como resultado, a cerveja pode ganhar caráter maltado, notas de pão/casca de pão e uma sensação de profundidade que, em estilos delicados, vira diferença real. E aqui entra a lógica central do episódio: em cervejas de perfil sutil, qualquer diferença faz diferença.

Confira mais um papo de altíssimo nível entre Henrique Boaventura e Jamal Awadallak!

O Brassagem Forte conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

O que muda no mosto: amido, FAN e fermentação

O ponto de partida para converter amido em açúcar é gelatinizar. Parte do amido está em uma estrutura cristalina compacta, na qual água e enzimas têm dificuldade de entrar. Em maltes, a gelatinização começa por volta de 58°C e tende a “picar” entre 62–65°C (varia por safra). A decocção ajuda porque rompe mais estrutura, expondo amido do interior do grão que não fica tão disponível num mash convencional.

Além disso, o processo altera o perfil de aminoácidos e pode elevar o FAN (Free Amino Nitrogen), o que tende a favorecer fermentações mais “redondas”. Ao mesmo tempo, como aminoácidos também são precursores de aromas, isso pode mudar o perfil aromático. Novamente, de forma sutil, mas perceptível quando o estilo é limpo.

E vale um alerta que o Henrique faz questão de deixar claro: dá pra produzir lagers excelentes sem decocção. Ela é um caminho histórico e sensorial, não o único caminho.

Alemanha x Tchéquia: não é a mesma decocção

O episódio destaca uma diferença clássica: uma Bohemian/Czech Pils e uma German Pils podem usar malte Pilsen e OG parecidas, mas a tcheca costuma ficar mais dourada e profunda, enquanto a alemã tende a palha. Isso tem relação com como a decocção é conduzida e, em especial, com a tradição tcheca de chama direta e tinas de cobre (melhor transferência térmica). Essa eficiência pode criar “microrregiões” mais quentes na interface, acelerando reações desejadas.

Jamal também lembra que a reação de Maillard “ideal” ocorre em temperaturas mais altas (algo como 120–130 °C), mas ela acontece em temperaturas menores e, no ambiente de pH baixo do mosto/fervura (em torno de 5,2–5,3), pode seguir vias que favorecem cor quando os precursores certos estão presentes.

Decocção simples, dupla e tripla: o clássico que cobra tempo

O Henrique revisa o básico:

  • Simples: remove uma fração (frequentemente ~1/3), aquece até faixa enzimática (69–70 °C), ferve 15–30 min e devolve para subir para a próxima rampa. É mais curto e com menor impacto sensorial.
  • Dupla: repete duas vezes, atravessando descansos como proteico → beta-amilase → alfa-amilase. Tende a ter mais efeito sensorial, mas é mais longo.
  • Tripla: “a mãe de todas”. Começa frio (20–35 °C), tira 1/3 e ferve, devolve para chegar perto de 52 °C (protease), repete para chegar a ~65 °C (amilases) e repete para chegar a ~75 °C (mash-out). Porém, como o aquecimento da fração retirada é demorado, a parte que fica na tina pode passar tempo demais em rampas, o que traz riscos de degradação e uma brassagem interminável se o equipamento for lento.

Decocção moderna: Schmitz e, finalmente, a decocção reversa

A conversa entra nas modernizações. Primeiro, o processo Schmitz: você separa boa parte do líquido (mantém em faixa de sacarificação em outro vessel) e ferve a fração mais “grossa” (mais grãos). Depois, precisa reconverter esse amido extra ao retornar o líquido enzimático. Jamal comenta a versão “aprimorada” com alfa-amilase termoestável, que funciona perto de 92–95°C, simplificando o retorno enzimático.

E então vem a estrela: decocção reversa (também chamada de pseudo-decocção), popularizada por Kai Troester (Braukaiser). A proposta é prática e convincente:

  1. Divida água e malte exatamente ao meio.
  2. Uma metade vai para uma panela extra e ferve (20–30 min.). Para “melhorar”, dá pra parar em 70 °C por 10–15 min. antes da fervura e já fazer conversão inicial.
  3. A outra metade fica em temperatura ambiente na panela de mostura.
  4. Misture as duas metades: a proporção 50/50 tende a cair perto de ~62°C, permitindo seguir com uma infusão normal (beta e/ou subir para alfa).
  5. Detalhe crítico: primeiro entra a parte fria e a quente por cima — nunca o contrário — para evitar “matar” enzimas ao despejar malte em mosto muito quente.

O ganho? “Gosto” e sensação de decocção com aumento de tempo relativamente pequeno (cerca de meia hora) e com impacto sensorial significativo, porque metade do mosto passou por fervura com grãos.

Ajuste fino: melano como “decocção em grão”

Para aproximar ainda mais, Jamal sugere algo como ~4% de malte Melanoidin, que ajuda cor e caráter maltado (melanoidinas). Ele reforça, porém, que não emula tudo: não replica o perfil de aminoácidos/FAN e outros efeitos de processo, mas chega muito perto do que a maioria busca sensorialmente.

Quando faz sentido usar (e como pensar a escolha)

Se o objetivo é maximizar autenticidade tcheca e você tem equipamento (e paciência), a tripla decocção segue sendo referência. Ainda assim, se a meta é praticidade com resultado convincente, a decocção reversa vira um “meio do caminho” extremamente eficiente. E, no fim, a mensagem do episódio é direta: teste ao menos uma vez o clássico, mas, depois disso, escolha a técnica que entrega o perfil que você quer, dentro do tempo e do equipamento que você tem.

Um caminho mais curto, sem abrir mão do copo

Decocção é trabalho. Contudo, o episódio mostra que “trabalho” não precisa ser sinônimo de “sofrimento”. A decocção reversa organiza o processo para concentrar o estresse térmico onde interessa, manter enzimas vivas onde importa e, ainda assim, entregar corpo, profundidade e aquele toque maltado característico.

Em outras palavras: dá pra chegar perto do resultado histórico com uma abordagem moderna. E é exatamente isso que torna a técnica tão atraente para quem faz lagers de perfil limpo e quer ganhar nuance sem perder o dia inteiro na brassagem.

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