Todo cervejeiro caseiro já imaginou o que seria viver de cerveja. Poucos colocam isso em prática, e menos ainda chegam a trabalhar numa cervejaria no exterior. Vinícius Baumhardt fez esse caminho, e o ponto de partida foi uma decisão tomada num aeroporto depois de meses de esgotamento. Hoje é Gerente de Qualidade na Uiltje Brewing Company, em Haarlem, na Holanda, com mais de quatro anos na empresa.
Vini é formado em publicidade e trabalhou sete anos como gestor de contas em agências de Porto Alegre. A virada começou em 2008, durante um intercâmbio de um ano na Irlanda. Conheceu Guinness, Hoegaarden e um universo de cervejas que simplesmente não existia no Brasil. Voltou diferente, mas seguiu na publicidade por anos. Até que o esgotamento chegou.
Viajava de duas a três vezes por semana para São Paulo e Curitiba, dormia pouco, e num aeroporto uma colega disse a frase que ficou: “Se tu não tomares a decisão, alguém vai tomar por ti. E vai ser muito mais doloroso“. No dia seguinte, foi trabalhar decidido a pedir demissão. A empresa o chamou para uma sala e anunciou a reestruturação do time. Ganhou rescisão, seguro-desemprego e a janela de tempo que precisava.
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A escola do Lagom
Com a vida reorganizada, Vini passou dois meses estudando sozinho, pesquisando equipamentos e fazendo as primeiras bateladas caseiras. Depois fez um curso intensivo de duas semanas no SENAI. Não porque aprendeu tudo lá, mas porque o certificado ajudava a mostrar comprometimento num currículo sem histórico na área.
O primeiro emprego foi no Lagom, brewpub histórico de Porto Alegre. Chegou na fase em que a operação saía do bar para uma fábrica no bairro Anchieta, com panela de 300 litros e fermentadores de 600 litros. A primeira semana foi limpando obra. Depois veio a limpeza de fermentador. Ficou quase quatro anos. O recado que ficou desse período: a maior parte do trabalho de um cervejeiro é limpeza, higienização e controle de processo. O glamour é a menor parte.
De lá, foi para a Felsen em Caxias do Sul, com panela de 1.000 litros e tanques de até 3.000 litros. Foi na Felsen que nasceu a Baumhardt Beer, sua marca cigana, com três rótulos: uma Pumpkin Ale (carro-chefe, com produção de cerca de 2.000 litros a cada três meses), uma West Coast EPA e uma Bohemian Pilsner. A Carla, sua esposa, cuidava das vendas e da comunicação.
A virada europeia
O estalo veio num estágio de duas semanas na Weyermann, em Bamberg, na Alemanha. Ao ver o nível de especialização e processo da indústria europeia, a ideia de trabalhar no exterior saiu do campo do sonho e virou um plano. Mandou currículos por meses, de seis a doze, antes de receber as primeiras respostas.
Chegaram duas ofertas ao mesmo tempo, Amsterdam e Haarlem. Escolheu a Uiltje por uma combinação de fatores que incluíam o perfil da cervejaria e o time. Chegou como All Around Brewer, o equivalente ao auxiliar do início de carreira. O primeiro mês foi inteiramente na adega. Levou seis meses até tocar na casa de brassagem. Hoje, depois de quatro anos e dois meses, é Gerente de Qualidade.
A diferença que mais chama atenção na operação holandesa é a especialização de funções: há quem cuide só da adega, só do envase, só da manutenção. No Brasil, um cervejeiro faz tudo. Na Holanda, cada etapa tem um especialista, o que gera mais consistência e menos margem para erro. Os equipamentos também são outra realidade, com sistemas de controle de processo e medidores de oxigênio dissolvido que a maioria das cervejarias brasileiras não usa.
O que ficou de aprendizado
- Sair de uma carreira consolidada para começar do zero exige planejamento financeiro real, não romantismo.
- O caminho começa pela base: limpeza, higienização e processo vêm antes da criatividade.
- Trabalhar no exterior significa recomeçar do chão de fábrica, independentemente da experiência acumulada no Brasil.
- A especialização de funções da indústria europeia entrega mais consistência do que o modelo generalista brasileiro.
- Uma marca própria, mesmo cigana, ensina a parte comercial que a operação de uma cervejaria não ensina.
Ouça o episódio completo
Este post é um resumo do que foi discutido no episódio. Para ouvir a conversa na íntegra, com os detalhes, exemplos e a troca em tempo real, acesse o Brassagem Forte no Spotify, YouTube ou no seu agregador de áudio favorito.
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