#315 – Brassando com Estilo: Experimental Beer

A categoria Experimental Beer (34C) do BJCP é, por definição, o último degrau do guia: um lugar pensado para qualquer cerveja que não se encaixe em nenhum estilo existente, nem mesmo nas inúmeras subcategorias de especialidade. Por isso, Henrique Boaventura e Fábio Koerich começam com um alerta que guia todo o episódio: “experimental” não é sinônimo de criatividade solta, e muito menos um atalho para fugir do enquadramento correto. Em outras palavras, é mais sobre incategorizabilidade técnica do que sobre “inventar moda”.

Além disso, o BJCP é claro: nada está fora de estilo em Experimental Beer, a menos que aquela cerveja possa ser inscrita em outra categoria. Portanto, a 34C deveria ser rara. Ainda assim, na prática, ela vira “porto seguro” para inscrições inseguras. E é aí que começam os problemas.

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O Brassagem Forte conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

O que o BJCP realmente pede na inscrição

Como a 34C não tem parâmetros sensoriais fixos (aroma, sabor, aparência e boca “variam”), o guia exige que o(a) participante dê contexto. Ou seja, você precisa explicar o que torna aquela cerveja experimental e por que ela não cabe em outro lugar.

Na inscrição, o BJCP pede que você inclua, pelo menos, um destes itens:

  • Ingredientes e/ou processos especiais que tornam a cerveja incategorizável;
  • Estatísticas (OG, FG, IBU, SRM, ABV);
  • Breve descrição sensorial (o que o juiz deve encontrar no copo).

Sem isso, o juiz não tem base. Consequentemente, a avaliação fica arbitrária, ou “na emoção”, o que é exatamente o oposto do que uma competição técnica deveria buscar.

Experimental não é “salvar cerveja da cagada”

Um dos pontos mais repetidos no papo é que Experimental Beer não existe para justificar problema de processo. Por exemplo: “Stout ácida” sem intenção histórica não vira experimental; frequentemente é só uma cerveja que deu errado. Da mesma forma, uma pilsen com Brett dominando não é um “experimento”: ela se encaixa melhor em Brett Beer, e pronto.

Aqui entra uma regra simples, mas crucial: não é storytelling, é o copo. Se aquilo que você fez não aparece sensorialmente, acabou. Ainda que o processo tenha sido “diferentão” (ânfora, grama para filtrar, micro-oxidação, o que for), se não trouxe aroma, sabor, corpo ou textura perceptíveis, a cerveja não ganha status de experimental.

Erros clássicos que derrubam a 34C

Fabio comenta que, olhando bases de concursos, 90–95% do que aparece como 34C seria fácil de encaixar em outra categoria. Porém, além do erro de enquadramento, há falhas recorrentes:

  1. Falta de equilíbrio e harmonia
    Mesmo que a proposta seja ousada, ela precisa ser boa. Portanto, criatividade não salva cerveja desequilibrada.
  2. Descrição longa e “poética”
    Henrique é direto: não precisa contar a saga da cereja colhida pela avó em 2015. Aliás, se passar de poucas frases, muita gente simplesmente não lê. Logo, foque no que importa para julgar.
  3. A proposta não entrega o resultado
    Se a inscrição promete “algo surpreendente” e no copo vem uma cerveja comum, a categoria vira só “cinema”.

Quando faz sentido ser Experimental Beer?

Fabio aponta um cenário mais comum em que a 34C pode ser razoável: quando há muitas adições/processos simultâneos e nenhum deles domina sensorialmente. Nesse caso, a cerveja não é claramente Fruit, Wood, Spice/Herb etc. Ainda assim, chegar nesse ponto de equilíbrio é difícil. Entretanto, se você conseguiu, pode ser que a 34C dê um julgamento mais justo.

Além disso, eles lembram que certas ideias realmente “quebram o mapa” do BJCP. O exemplo mais marcante citado é uma cerveja feita com leite usado para marinar peixe (o líquido do ceviche), levando sabor do mar para o copo. Nesse caso, a cerveja foge do conjunto de categorias tradicionais de especialidade. Da mesma forma, aparecem menções a ingredientes de origem animal (como camarão) e a insumos com foco em umami, como katsubushi/bonito flakes, que tendem a empurrar a cerveja para a borda do guia.

Dicas práticas para escrever uma inscrição forte

Se você vai colocar uma cerveja na 34C, a recomendação é objetiva:

  • Descreva a base (estilo ou estrutura) e inclua stats, se possível.
  • Explique o processo/ingrediente diferencial em linguagem técnica e curta.
  • Declare a intenção sensorial: o que a mudança deveria trazer ao copo.
  • Justifique por que não cabe em outra categoria (em uma frase clara).
  • Foque no resultado: se você não chegou onde queria, não “vende” a intenção.

Um exemplo citado no episódio traz base de Weizenbock, stats, micro-oxidação por oito meses, blend com Old Ale, envase sem carbonatação e pasteurização. Ainda assim, faltou o essencial: qual era o objetivo sensorial da micro-oxidação e do blend. Ou seja, a inscrição mostrou “o que fez”, mas não disse “para quê”, e isso limita o julgamento.

Um juiz melhor é um juiz menos “cuzão”

Por fim, há um recado que vale ouro: a cultura de jurado “caçador de defeitos” vem mudando. E precisa mesmo. Afinal, com o declínio do hobby, ser excessivamente punitivo afasta pessoas. Portanto, a postura ideal é incentivar, entender a proposta e julgar com justiça, especialmente na zona cinza das especialidades, onde o guia nem sempre ajuda.

No fim das contas, Experimental Beer é consequência, não meta. Você não abre o software de receita pensando “hoje vou fazer uma 34C”. Você tem um insight, testa, e só então descobre que aquilo não cabe em outro lugar. E se couber, melhor ainda: inscreva onde faz sentido. Porque, no concurso, o que manda é simples: o copo.

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