#308 – Caçador de Estilos Perdidos: Grisette

Você já ouviu falar de uma cerveja criada para mineiros? Não para nobres, não para salões elegantes, muito menos para os nascidos em Minas Gerais, mas para trabalhadores que passavam longas jornadas sob a terra, cercados por carvão, poeira e calor. A Grisette nasce exatamente desse contexto.

Dourada, altamente carbonatada, leve e seca, ela foi pensada para refrescar, nutrir e aliviar a sede sem comprometer o trabalho. Neste episódio da mais nova série do Brassagem Forte, Caçador de Estilos Perdidos, Henrique Boaventura resgata a história dessa cerveja quase esquecida, mostrando como ela reflete uma transformação profunda na sociedade e na forma de produzir cerveja.

O Brassagem Forte conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

E deixamos aqui um agradecimento especial ao Mauricio Gardini pelo apoio na pesquisa para este episódio!

A Bélgica industrial e o surgimento da Grisette

Para compreender a Grisette, é necessário voltar ao século XIX e observar a Bélgica em plena Revolução Industrial. Enquanto o norte do país mantinha uma economia agrária, o sul, francófono, especialmente a região de Hainaut, tornava-se um dos principais polos de mineração de carvão e siderurgia da Europa continental. Cidades como Mons, Charleroi e La Louvière concentravam milhares de trabalhadores submetidos a condições extremas de trabalho.

Nesse cenário, a cerveja precisava cumprir uma função clara. Ela deveria ser refrescante, nutritiva e barata, mas, ao mesmo tempo, pouco alcoólica. Por esse motivo, a Grisette surge como uma cerveja urbana, feita em pequenas cervejarias semi-industrializadas, produzida ao longo de todo o ano e pensada para o consumo diário. Diferentemente de outros estilos belgas, ela não nasceu do campo, mas da fábrica.

Grisette e Saison: semelhanças aparentes, funções distintas

Embora frequentemente comparada à Saison, a Grisette tem origem, propósito e perfil sensorial distintos. A Saison era produzida nas fazendas do norte da Valônia durante o inverno e armazenada até o verão, quando era servida aos trabalhadores rurais. Por isso, precisava resistir ao tempo, apresentando maior teor alcoólico, complexidade aromática e, muitas vezes, rusticidade, acidez e presença de leveduras Brettanomyces.

A Grisette, por outro lado, era feita para ser bebida fresca. Seu teor alcoólico ficava entre 3,5% e 5%, e sua fermentação utilizava leveduras altamente atenuativas, porém menos expressivas em ésteres e fenóis. Assim, o resultado era uma cerveja mais limpa, seca e direta, com maior protagonismo do lúpulo. Se a Saison pode ser vista como a cerveja do campo, a Grisette representa a cerveja da indústria.

O significado do nome e o simbolismo do cinza

O nome Grisette deriva do francês gris, que significa “cinza”. Existem várias teorias para essa denominação. Algumas associam o termo às jovens conhecidas como les grisettes, que serviam a cerveja vestindo roupas cinzentas. Outras apontam para a aparência levemente turva da cerveja, situada entre o dourado claro e o esbranquiçado. Há ainda quem relacione o nome à pedra calcária cinzenta extraída das minas da região.

Entretanto, o simbolismo mais forte está no contraste entre o cinza da vida industrial — a poeira, as roupas e o ambiente das minas — e o dourado brilhante da cerveja no copo. A Grisette era um pequeno luxo acessível, uma recompensa líquida ao final de um dia exaustivo.

Perfil sensorial e características técnicas

Historicamente, a Grisette apresentava densidade inicial entre 1.030 e 1.045, resultando em uma cerveja extremamente seca e de alta drinkability. No copo, era clara, levemente turva e altamente carbonatada. Aromas herbais provenientes de lúpulos europeus nobres se combinavam a um leve frutado da fermentação, enquanto o final seco ampliava a sensação de frescor.

Segundo o pesquisador David Janssen, as Grisettes históricas possuíam amargor comparável ao das Pilsens da época, variando entre 25 e 35 IBUs. Esse nível de amargor era significativo para uma cerveja de baixo teor alcoólico e reforçava seu caráter funcional e refrescante.

Ingredientes, processo e categorias históricas

A base da Grisette era composta principalmente por malte de cevada clara de primavera, com uma pequena proporção de trigo maltado pouco modificado, responsável por melhorar o corpo e a retenção de espuma. A mostura seguia o método belga tradicional, com rampas graduais de temperatura, e a fervura era longa, variando entre 90 e 120 minutos, com adições generosas de lúpulos no início e no final.

Os registros do século XIX indicam que a Grisette não era um estilo único, mas uma família de cervejas. A Grisette Ordinaire, com até 4,5% de álcool, era a versão cotidiana consumida pelos mineiros. A Grisette de Saison, produzida no inverno, tinha densidade e teor alcoólico um pouco maiores, podendo ser armazenada por algumas semanas. Já a Grisette Double ou Superior, mais alcoólica e encorpada, era considerada uma versão de luxo, ocasionalmente engarrafada e refermentada.

Quando o contexto molda a cerveja

A Grisette é um lembrete de que cervejas simples podem carregar histórias profundas. Ela representa uma época marcada pelo trabalho duro, pelo orgulho operário e pela engenhosidade cervejeira. Para além de uma mera receita, a Grisette é fruto de um contexto social e econômico específico, no qual a funcionalidade e as necessidades pragmáticas do cotidiano minerador ditaram os sabores.

Talvez seja justamente por isso que ela ainda inspire curiosidade hoje em dia. Ao resgatar a Grisette, revisitamos não apenas um estilo perdido, mas também a relação íntima entre cerveja, trabalho e sociedade.

E assim termina mais uma caçada, deixando a lembrança de que, por trás de cada gole, sempre existe uma história esperando para ser contada.

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