Quem começa a fazer cerveja em casa, muitas vezes, quer reproduzir o que viu numa cervejaria: três panelas (água quente, mostura/clarificação e fervura). Entretanto, no universo fabril, essa arquitetura existe por um motivo específico: aproveitar a planta ao máximo. Ou seja, enquanto um mosto está em mostura, outro está sendo filtrado e um terceiro está fervendo, num fluxo quase “linha de montagem”, permitindo fazer várias brassagens no mesmo dia.
No cenário caseiro, porém, isso raramente é necessário. Geralmente, faz-se uma cerveja, no máximo duas. Portanto, faz sentido discutir um sistema mais compacto e otimizado: o Double Vessel, tema deste episódio do Brassagem Forte, em que Henrique Boaventura conversa com Ronier Afonso, da Ezbrew.
O Brassagem Forte conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da própria EZbrew e da Cerveja Stannis.
O que é Double Vessel, afinal?
No conceito central, Double Vessel é um sistema com dois vasos que trabalham interligados desde o início do processo. Em vez de crescer “na horizontal” (três panelas ocupando espaço), o Double Vessel tende a operar na vertical, poupando área e simplificando o fluxo.
Ainda assim, existe uma diferença importante:
- Double Vessel manual/semi-manual: uma panela de mostura/clarificação com fundo falso + uma panela de fervura. Os vasos são usados de forma mais “sequencial”, embora possa haver recirculação com bomba.
- Double Vessel automatizado (como a linha K da Ezbrew): a mostura ocorre no tanque superior, enquanto o aquecimento fica no tanque inferior. O líquido é aquecido embaixo, bombeado para cima, atravessa a cama de grãos e retorna por gravidade, fechando o circuito.
Desse modo, o aquecimento da mostura é indireto em relação ao vaso de mostura, mas ainda assim ocorre em contato direto com o mosto no tanque inferior.
Aquecimento indireto, resistência e o “fantasma” da caramelização
A comparação que surge naturalmente é com um RIMS: há aquecimento fora do leito de grãos e recirculação constante. Porém, quando a resistência aquece o mosto diretamente, alguns cuidados viram projeto.
Ronier destaca a importância de resistências com maior área de contato, com trajetos mais longos (não apenas um “U” simples). Assim, a mesma potência é distribuída em uma área maior, reduzindo pontos quentes e, consequentemente, diminuindo o risco de caramelização e queima de mosto, especialmente em receitas com maior carga de malte e mais açúcar disponível.
Além disso, o equipamento possui sensores de segurança: se não houver volume mínimo de líquido, a resistência não liga. Isso ajuda a evitar o cenário clássico de “resistência trabalhando seca”, que, cedo ou tarde, vira mosto queimado.
Eficiência, volume útil e por que “somar volumes” muda o jogo
Uma vantagem marcante do Double Vessel automatizado é a flexibilidade de volume. No exemplo da K60, o sistema tem aproximadamente:
- Tanque inferior (fervura): 60 L
- Tanque superior (mostura): ~45–47 L
Como os vasos trabalham juntos, os volumes se somam, entregando mais “folga” de operação. Por consequência, mesmo processando maltes em maior quantidade (ex.: 15 kg), você preserva mais espaço útil do que em um single vessel com cesto, onde o volume do grão “come” litros do tanque.
Além disso, como a recirculação é contínua, você reduz caminhos preferenciais, melhora a troca de calor e aumenta a extração. Em termos práticos, Ronier menciona eficiência tranquila em torno de 70%, com clientes chegando a 85% quando dominam moagem, fluxo, lavagem e demais ajustes. Ainda assim, ele reforça: não é só equipamento: há fatores como moagem e condução do processo que influenciam diretamente!
Clarificação e controle de vazão: onde o Double Vessel “brilha”
A clarificação ganha pontos por alguns motivos. Primeiro, há fundo falso, que ajuda a formar a cama de grãos e oferece grande área de passagem, enquanto o bagaço faz a filtragem de fato. Segundo, como a recirculação pode rodar durante toda a mostura (ex.: 1h30), volumes enormes passam pela cama, resultando em um mosto mais limpo ao final.
Além disso, ao drenar para a fervura, a cama de grãos tende a ficar “quieta”. E, diferentemente do cesto (que drena livre e rápido), o Double Vessel conta com válvula de controle, permitindo reduzir a vazão e fazer uma lavagem mais lenta, se desejado. Assim, você escolhe: mais rapidez, ou mais eficiência e clareza.
Lúpulo, whirlpool e retenção de trub
Com cargas altas de lúpulo, Ronier recomenda começar pelo simples: usar hop spider, preferencialmente maior, para reduzir sólidos soltos na panela.
No fundo do tanque, a Ezbrew projeta um anteparo de whirlpool ao lado da resistência, acompanhando sua circunferência. A função é ajudar a manter o trub concentrado no centro (formando o cone) e permitir que o líquido seja drenado pelas laterais, reduzindo o arraste de proteínas e lúpulo para o fermentador — desde que, claro, você faça boas práticas de whirlpool, pH e resfriamento.
Ergonomia, limpeza e manutenção: o lado “vida real”
Se existe um ponto que costuma frustrar homebrewer, é levantar cesto ou bag encharcado. No Double Vessel, o tanque de mostura já fica suspenso; você drena, pode até deixar escorrendo enquanto aquece rumo à fervura e, depois, fecha a válvula e remove sem pingueira constante. Inclusive, como o topo é aberto, dá para retirar o bagaço aos poucos com uma caneca, deixando o tanque leve.
Na limpeza, a regra é direta: limpar rápido. Detergente e esponja resolvem grande parte. Periodicamente, dá para usar percarbonato/limpador alcalino. Soda cáustica pode agredir anéis e mangueiras de silicone com uso repetido, embora o inox 304 não sofra tanto. E, para manutenção, a Ezbrew aposta em modularidade: comando remoto separado (o “cérebro” vai pelo correio, se necessário) e bomba não embutida, facilitando desentupir e seguir a brassagem.
Dois vasos, mais controle, menos perrengue
No fim, o Double Vessel automatizado aparece como uma resposta madura ao “fetiche das três panelas”. Ele economiza espaço ao trabalhar na vertical e, ao mesmo tempo, melhora controle de temperatura, facilita rampas, aumenta flexibilidade de volume e tende a entregar boa eficiência e clarificação, desde que o cervejeiro faça a parte dele.
E talvez essa seja a sacada principal do episódio: o equipamento não é mágico. Porém, quando projeto e processo andam juntos, você ganha o que todo mundo quer na prática: consistência, tempo e menos sofrimento na brassagem.

