Brassando Forte, com Henrique Boaventura. Um podcast onde o foco é a cerveja. Criado para ser um programa para o cervejeiro caseiro, queremos trazer sempre os assuntos mais recentes, técnicas, responder dúvidas e polemizar.
American Strong Ale: potência, malte e lúpulo sem brigar no copo
Neste primeiro episódio de 2026 do Brassagem Forte, Henrique Boaventura realiza um daqueles encontros “de checklist” para quem quer produzir cerveja com intenção: conversar com John Palmer sobre como construir uma American Strong Ale tecnicamente correta, intensa e, ainda assim, equilibrada.
Ajuste de água na prática: aplicações em três estilos de cerveja
Introdução: a água como elemento final (e essencial)
Neste episódio bônus, que encerra a série sobre água no Brassagem Forte, Henrique Boaventura e Gabriela Lando, a Química Cervejeira, se aprofundam na aplicação prática dos conhecimentos discutidos em episódios anteriores.
A proposta? Ajustar a água para três estilos diferentes de cerveja utilizando dois perfis opostos: uma água de superfície (pouco mineralizada) e uma água de poço (alta alcalinidade).
O objetivo aqui não é apenas aplicar concentrações em um software como Brewfather ou Beersmith, mas entender o raciocínio por trás dos ajustes, seus impactos sensoriais e técnicos, e como alcançar o equilíbrio necessário para extrair o melhor de cada receita.
Antes de entrar nos números, Gabriela resgata conceitos fundamentais do livro Water, de John Palmer:
Objetivo da correção da água: melhorar o sabor da cerveja, nunca complicar o processo.
Menos é mais: evitar excesso de mineralização, respeitando os limites recomendados para cada mineral.
Repetição e calibração: são necessários de 3 a 5 lotes para encontrar o ponto ideal.
Faixa de pH ideal da mostura: entre 5,2 e 5,6. Medir sempre com pH-metro calibrado.
Evite pressa e exageros: “Meça duas vezes, adicione uma.”
Não tenha medo de errar: experimente, mas com responsabilidade técnica e sanitária.
Os perfis de água utilizados
Água de superfície (padrão de rede urbana)
pH: 6,2
Cálcio (Ca): 6 ppm
Magnésio (Mg): 2 ppm
Sódio (Na): 5 ppm
Cloreto (Cl): 12 ppm
Sulfato (SO₄): 15 ppm
Bicarbonato (HCO₃): 10 ppm
Alcalinidade: 8 ppm
Alcalinidade residual: 2,5 ppm
Água de poço (alta alcalinidade)
pH: 7,1
Cálcio: 35 ppm
Magnésio: 7 ppm
Sódio: 13 ppm
Cloreto: 15 ppm
Sulfato: 0 ppm (abaixo do limite de detecção)
Bicarbonato: 160 ppm
Alcalinidade: 131 ppm
Alcalinidade residual: 102 ppm
Água
Superficial (S)
Poço (P)
pH
6,2
7,1
Ca2+(cálcio)
6 ppm
35 ppm
Mg2+ (magnésio)
2 ppm
7 ppm
Na+ (sódio)
5 ppm
13 ppm
Cl– (cloreto)
12 ppm
15 ppm
SO42- (sulfato)
15 ppm
0 ppm
HCO3– (bicarbonato)
10 ppm
160 ppm
Alcalinidade
8 ppm
131 ppm
RA
2,5 (3 no Brewfather)
102
Estudo de Caso 1: Cream Ale
Características do estilo
A Cream Ale é uma cerveja leve, limpa, neutra, refrescante e com leve caráter maltado. Altamente carbonatada, é ideal para consumo em atividades ao ar livre, com atenuação elevada e pouco amargor.
Receita base (brew in a bag)
4,5 kg de malte Pilsen
500 g de milho em flocos
150 g de açúcar comum
Volume total de água: 34 L
Volume final de mostura: 21 L
Eficiência: 70%
Diretrizes de perfil de água (segundo Palmer)
Para uma cerveja clara, leve e com amargor de baixo a médio:
Cálcio: 50–100 ppm
Magnésio: até 30 ppm
Cloreto: até 100 ppm
Sulfato: até 50 ppm
Razão Sulfato/Cloreto: ~1,3
Alcalinidade residual: entre -30 e 0 ppm
Ajuste da água de superfície
Problema: Baixos níveis de cálcio e magnésio. Solução proposta:
Aumentar cálcio para 60 ppm
Aumentar magnésio para 10 ppm (opcional)
Impacto da alteração:
Com cálcio e magnésio: alcalinidade residual = -40
Apenas cálcio: alcalinidade residual = -36
Adição de sais (para 34 L de água):
3 g de cloreto de cálcio (CaCl₂)
3,3 g de sulfato de cálcio (CaSO₄)
Resultado:
Sulfato = 70 ppm
Cloreto = 55 ppm
Razão ≈ 1,3
Alcalinidade residual = -31
Nota: Magnésio poderia ser adicionado, mas não foi neste caso para evitar ultrapassar a proporção ideal e não carregar o perfil sensorial.
Ajuste da água de poço
Problema: Alcalinidade muito elevada (102 ppm). Adição dos mesmos sais (CaCl₂ e CaSO₄):
2,8 g de cloreto de cálcio
4,8 g de sulfato de cálcio
Resultado:
Cálcio = 87 ppm
Alcalinidade residual = 65 ppm
Solução complementar:
Acidificação com ácido lático a 80%
Previsão de adição: 4,5 mL para alcançar pH 5,6
Alerta importante:
Não confiar 100% nas previsões do Brewfather; sempre usar pH-metro calibrado durante a mostura.
Cream Ale
S (início)
S (final)
P (início)
P (final)
Ca2+
6 ppm
53 ppm
35 ppm
86 ppm
Mg2+
2 ppm
2 ppm
7 ppm
7 ppm
Na+
5 ppm
5 ppm
13 ppm
13 ppm
Cl–
12 ppm
55 ppm
15 ppm
55 ppm
SO42-
15 ppm
70 ppm
0 ppm
70 ppm
HCO3–
10 ppm
–
160 ppm
–
Alcalinidade
8 ppm
–
131 ppm
–
RA
3
-31
102
65
Acidificação?
Talvez
Sim
Adições
3 g de cloreto de cálcio (CaCl2) 3,3 g de sulfato de cálcio (CaSO4)
2,5 g de cloreto de cálcio (CaCl2) 4,2 g de sulfato de cálcio (CaSO4)
Volume
34 L de água
Considerações técnicas importantes
Sais sempre vêm com nome e sobrenome: usar cloreto de cálcio e sulfato de cálcio implica em adicionar tanto o cátion (Ca²⁺) quanto o ânion (Cl⁻ ou SO₄²⁻). Isso afeta múltiplos parâmetros.
O pH é logarítmico, não linear: pequenas adições de ácido podem ter impactos desproporcionais. Ajuste com calma e com acompanhamento em tempo real.
Só ajuste pH depois da adição do malte: os maltes afetam fortemente o pH da mostura, especialmente maltes escuros ou cristal.
O ácido lático é o mais indicado para ajuste de pH: o fosfórico pode interferir com o cálcio e prejudicar o processo.
Estudo de Caso 2: American IPA
Características do estilo
Segundo o BJCP, a American IPA é uma cerveja clara, de teor alcoólico moderadamente alto, com destaque para o lúpulo — tanto no aroma quanto no amargor. Seu perfil de fermentação é limpo, com final seco e amargor assertivo.
Receita utilizada
Baseada na Punk IPA da BrewDog:
6 kg de malte Pale
330 g de Caramunique I
Mostura com 35,5 L de água, fervura com 31,8 L
Lote final: 21 L
Diretrizes de perfil de água para o estilo
Conforme Palmer:
Cálcio: 50–150 ppm
Magnésio: 0–30 ppm
Cloreto: 0–100 ppm
Sulfato: 100–400 ppm
Relação Sulfato:Cloreto: 2,5 a 4
Alcalinidade residual: -30 a +30 ppm
Ajuste da água de superfície
Objetivo: manter a intensidade de lúpulo sem excesso de minerais.
Sulfato: 200 ppm
Cloreto: 75 ppm → Razão: 2,7
Magnésio: 12 ppm para evitar excesso de cálcio
Cálcio: 103 ppm
Adições por 35,5 L de água:
9,3 g de sulfato de cálcio (CaSO₄)
13,5 g de sulfato de magnésio (MgSO₄)
13,5 g de cloreto de cálcio (CaCl₂)
Resultado técnico:
pH estimado: ~5,4
Se necessário, ajuste com bicarbonato de sódio:
2,5 g → aumenta alcalinidade residual para -30 ppm
Sódio resultante: 24 ppm
Ajuste da água de poço
Água com elevada alcalinidade exige maior atenção.
Adições por 35,5 L:
7,1 g de CaSO₄
8 g de MgSO₄
3,4 g de CaCl₂
Resultados:
Cálcio = 116 ppm
Magnésio = 29 ppm
Alcalinidade residual = 31 ppm
Acidificação necessária: 1,3 mL de ácido lático (80%) para pH 5,6
American IPA
S (início)
S (final)
P (início)
P (final)
Ca2+
6 ppm
103 ppm
35 ppm
116 ppm
Mg2+
2 ppm
12 ppm
7 ppm
29 ppm
Na+
5 ppm
24 ppm
13 ppm
13 ppm
Cl–
12 ppm
75 ppm
15 ppm
76 ppm
SO42-
15 ppm
200 ppm
0 ppm
200 ppm
HCO3–
10 ppm
–
160 ppm
–
Alcalinidade
8 ppm
–
131 ppm
–
RA
3
-30
102
31
Acidificação?
Não
Sim
Adições
2,5 g de bicarbonato de sódio (NaHCO3) 3,5 g de cloreto de cálcio (CaCl2)9,3 g de sulfato de cálcio (CaSO4)3,5 g de sulfato de magnésio (MgSO4)
3,4 g de cloreto de cálcio (CaCl2) 7,1 g de sulfato de cálcio (CaSO4)8 g de sulfato de magnésio (MgSO4)
Volume
35,5 L de água
Estudo de Caso 3: Irish Stout
Características do estilo
Estilo preto com sabor torrado pronunciado. Pode variar de levemente maltada até extremamente seca e amarga. O perfil sensorial remete a café e chocolate, com ou sem cremosidade, dependendo do método de serviço.
Receita
3 kg de malte Pale
650 g de cevada em flocos
320 g de cevada torrada
33,5 L de água de mostura, fervura com 31 L
Lote final: 21 L
Parâmetros ideais para o estilo (Palmer)
Cálcio: 50–75 ppm
Magnésio: 0–30 ppm
Cloreto e sulfato: 50–150 ppm cada
Relação: ~1:1
Alcalinidade residual: 60–120 ppm
Águas alcalinas são desejáveis
Ajuste com água superficial
Desafio: baixa alcalinidade pode levar a pH abaixo do ideal com maltes escuros.
Evitar uso de carbonato de cálcio: difícil solubilização. Solução:
Usar bicarbonato de sódio para elevar a alcalinidade
Evitar práticas como adicionar sais sobre a cama de grãos — não há eficácia comprovada
Composição final da água (para 33,5 L):
3,6 g de CaSO₄
4,3 g de CaCl₂
3,4 g de bicarbonato de sódio
Resultados:
Alcalinidade = 82 ppm
Cálcio = 66 ppm
Sódio = 33 ppm
Sulfato e cloreto = 75 ppm cada
Ajuste com água de poço
Vantagem: alcalinidade já elevada, ideal para maltes torrados. Desafio: ausência de sulfato → necessário adicionar.
Adições (para 33,5 L):
2 g de CaSO₄
3,2 g de CaCl₂
2,3 g de MgSO₄
Resultados:
Cálcio = 75 ppm
Magnésio = 14 ppm
Sulfato e cloreto = 60 ppm cada
Alcalinidade residual = 69 ppm
Atenção especial:
Mesmo com água alcalina, medir o pH é essencial.
Maltes escuros variam muito de cor real em relação ao valor estimado nas calculadoras (como Brewfather).
Ideal: solicitar ao fornecedor o EBC real dos maltes.
Irish Stout
S (início)
S (final)
P (início)
P (final)
Ca2+
6 ppm
66 ppm
35 ppm
75 ppm
Mg2+
2 ppm
2 ppm
7 ppm
14 ppm
Na+
5 ppm
33 ppm
13 ppm
13 ppm
Cl–
12 ppm
75 ppm
15 ppm
60 ppm
SO42-
15 ppm
75 ppm
0 ppm
60 ppm
HCO3–
10 ppm
–
160 ppm
–
Alcalinidade
8 ppm
–
131 ppm
–
RA
3
19
102
69
Acidificação?
Não
Sim
Adições
3,4 g de bicarbonato de sódio (NaHCO3) 4,3 g de cloreto de cálcio (CaCl2)3,6 g de sulfato de cálcio (CaSO4)
3,2 g de cloreto de cálcio (CaCl2) 2 g de sulfato de cálcio (CaSO4)2,3 g de sulfato de magnésio (MgSO4)
Volume
33,5 L de água
Conclusão: ajuste de a água é estratégia e prática
O ajuste do perfil de água é uma das ferramentas mais poderosas para a construção do perfil sensorial e técnico de uma cerveja. Como visto nos três exemplos — Cream Ale, American IPA e Irish Stout —, diferentes fontes de água e objetivos de estilo exigem estratégias distintas:
Águas pouco mineralizadas exigem complementação precisa de sais e atenção com o pH.
Águas de poço podem facilitar receitas escuras, mas exigem controle de minerais específicos.
Não há atalhos: medição de pH durante a mostura é obrigatória.
O uso consciente de sais (com “nome e sobrenome”) evita desequilíbrios técnicos.
Ferramentas como o Brewfather são úteis, mas não substituem a medição real com pH-metros calibrados.
E por fim, o ajuste de água é tanto uma ciência quanto uma arte. Exige testes, paciência, observação e curiosidade. Como resumiu Gabriela , o mantra que deve ficar após essa série é simples e direto:
Essas obras são ótimos pontos de partida (e aprofundamento) para quem deseja entender melhor como a água influencia — e pode transformar — a cerveja que você produz!